As origens da Pastoral da Saúde: raízes bíblicas e históricas

Desde o Antigo Testamento até os dias de hoje, a atenção aos doentes aparece como uma expressão concreta do amor de Deus e do cumprimento da missão confiada ao povo escolhido. O cuidado com os enfermos e os vulneráveis está ligado à prática da misericórdia, da justiça e da fidelidade a Deus. Os profetas sempre insistiam no cuidado com os vulneráveis/enfermos, mesmo que, muitas vezes, as palavras “enfermo” ou “doença” não fossem mencionadas explicitamente.

Entretanto, o princípio do cuidado com os mais vulneráveis sempre esteve claro (Is 58, 6-7). Em outros livros sagrados, essa responsabilidade aparece de maneira ainda mais clara como um dever social e comunitário que converge a oração e o cuidado prático, reconhecendo também a figura do médico como um grande instrumento de Deus, para ajudar a mitigar todos os sofrimentos, físicos e espirituais (Eclo 38, 9).

Portanto, ao longo do tempo, a humanidade, inspirada pelo Espírito de Deus, vai amadurecendo a sua compreensão sobre o sofrimento. As enfermidades deixam de ser vistas apenas como consequência de um “castigo divino”; passam a ser compreendidas também como ocasião de conversão, crescimento espiritual e participação na obra redentora de Cristo.

A vida pública de Cristo é profundamente marcada pela presença e encontro com os doentes. Jesus se aproxima, escuta, toca e reintegra os enfermos à convivência familiar e comunitária (Mt 4, 23). Ele não apenas curava a enfermidade física e social, mas curava as enfermidades espirituais também. Aquele que O encontrava, não só tinha a cura da doença como também um novo sentido na vida, e com isso, uma vida cheia de alegria e esperança.

Todos renascem a uma vida nova, e talvez para os dias de hoje, este renascimento seja um dos principais objetivos da Pastoral da Saúde. Objetivos que nascem da própria revelação bíblica.

Cristo, ao enviar os discípulos, ordena: “Curai os enfermos” ( MT 10,8). Neste período, a atenção aos doentes ganha uma nova perspectiva, deixando de ser apenas um gesto de solidariedade e compaixão, passando a ser parte essencial da missão da Igreja, uma ordem direta para aqueles que O seguem. Cristo, o Deus que se fez homem, se coloca em primeira pessoa; “estive doente e me visitaste”, Ele se identifica com o enfermo. Por conseguinte, cuidar do doente é cuidar do próprio Cristo. No decorrer do tempo, os apóstolos compreenderam esta missão. Tanto que nas cartas apostólicas, como nas cartas paulinas se encontram um abundante número de passagens, referentes a este mandato de Cristo.

Aos olhos humanos, é um paradoxo sem sentido, porém, aos olhos espirituais, iluminados pela revelação de Jesus, o enfermo se torna um canal, uma fonte de alimento espiritual, com o qual Cristo se comunica e direciona a todos os que respondem ao seu chamado, vendo no sofrimento humano a presença do próprio Deus.

Inspirados e animados pelo envio do Espírito Santo no Pentecostes, os apóstolos e discípulos de Jesus, começam a tomar consciência de tudo aquilo que o Filho de Deus tivera ensinado ao longo da sua vida pública. Embora o nome “Pastoral” não existisse à época, desde sempre as atividades eram inerentes, já existiam, a hoje chamada Pastoral da Saúde.

Nas primeiras comunidades esta missão já estava clara, em Tiago (5, 14-15) encontramos uma das bases bíblicas para um dos Sacramentos de Cura, a Unção dos Enfermos, onde Jesus mesmo conforta, fortalece e cura, e em última análise, prepara e restaura a alma daquele que a recebe.

Logo, as primeiras comunidades também aprofundam o conceito de sofrimento; a fragilidade humana, o cuidado comunitário, “se um membro sofre, todos sofremos…” (1Co 12, 26). O sofrimento não tem apenas uma consequência individual, mas pertence a toda a comunidade que é convidada a cuidar, acompanhar e sustentar.

Os apóstolos e os primeiros cristãos, já contavam também com a presença da Eucaristia, o centro da vida da Igreja e principalmente dos enfermos. Desde os primeiros séculos, já havia o costume de levar o Corpo de Cristo aos que não podiam participar da comunidade. A Eucaristia torna-se alimento espiritual, fonte de consolação e comunhão com a Igreja, a presença viva de Cristo que vai ao encontro do enfermo em sua realidade.

A Pastoral da Saúde, ainda não conhecida pelo nome, não possuía a tecnologia e a organização dos dias atuais, mas já era reconhecida pelas suas obras. E pelo princípio da participação, podemos considerar que todos aqueles que contribuem, de alguma forma, com esta obra de misericórdia corporal (CIC 2447), podem ser considerados um membro desta Pastoral.

Assim, desde as primeiras comunidades cristãs até os dias atuais, a Pastoral da Saúde permanece como expressão concreta da misericórdia de Cristo. Mais do que uma ação social, ela é uma missão evangelizadora que restaura a dignidade humana, fortalece os enfermos e manifesta a presença amorosa de Deus no sofrimento humano.

Fernando Ferreira

Agente Pastoral Região Lapa – Equipe de Coordenação Decanato São Simão

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